A Divisão

No dia 23 de janeiro, chega aos cinemas A Divisão, um filme nacional estrelado por Silvio Guindane, Erom Cordeiro e grande elenco. Essa crítica NÃO CONTÉM SPOILERS!

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Mas afinal, o filme é bom?

A Divisão é mais um filme que mostra a triste realidade do nosso Brasil, mas especificamente do Rio de Janeiro. Esse é um ponto negativo, mas no que diz respeito ao mercado de cinema brasileiro, pois, nos deparamos com mais um filme de favela, corrupção, violência e polícias matando pessoas a rodo. Sei que ao lado das comédias pastelões, o gênero policial é lucrativo para o cinema nacional, mas ainda assim, acho que os produtores e roteiristas deveriam investir seu tempo e dinheiro em outros projetos para diversificar o que é entregue ao grande público. Só fazendo um breve adendo, direciono essa crítica aos “blockbusters” nacionais, pois sei que no cenário independente e de menor valor comercial, existem obras completamente diferentes desse nicho comédia & policial.

Muito bem, deixemos a crítica acima de lado e vamos focar no filme em si. Mesmo já sendo um tema batido e exaustivamente explorado, o gênero policial, favela e violência carioca é muito bem retratado e apresentado em tela. Tanto os diretores, como a equipe de fotografia, maquiagem e tudo mais, estão craques em trazer para as telas o triste cenário da violência no Rio de Janeiro. A Divisão, é um longa inspirado em uma história real, na qual trata em sua narrativa a onda de sequestros que aconteceram no ano de 1997 no Rio. Se já não bastasse a violência, a bandidagem explorou o sequestro como uma forma muito lucrativa de ganhar dinheiro em cima de figurões da política e grandes empresas. E pra variar (infelizmente, sem novidades), temos corrupção espalhada por todos os setores da justiça pública.

Protagonizado por Silvio Guindane Erom Cordeiro, A Divisão é de longe o melhor filme policial desde o consagrado Tropa de Elite. Dinâmico, com uma trama pesada e densa em alguns momentos, o longa se aprofunda nas entranhas da podridão do “negócio do sequestro”, e traz para as telas uma trama envolvente, tensa e que te faz se sentir na pele da vítima e de sua família. Os ângulos de câmera e até a visão em primeira pessoa em alguns momentos, favoreceram a sensação aflitiva de estar no lugar da vítima. O diretor Vicente Amorim conseguiu criar esse clima de terror e passar um pouco dos horrores de um sequestro.

Deixando os horrores de lado, a parte policial do filme é muito boa. A Divisão apresenta seus personagens e gradativamente vai levando o espectador para dentro da investigação e suas descobertas. A cada nova pista, a cada novo detalhe que aproxima a dupla policial do paradeiro da vítima, vibramos, sofremos e ficamos ansiosos para uma resolução positiva. Em contrapartida, quanto mais a trama avança em seu desenrolar, mais mergulhamos na corrupção e no “negócio” que é o sequestro. Vanessa Gerbelli e Dalton Vigh trouxeram temor e desespero ao viverem os pais da vítima. Por outro lado, o personagem de Vigh mostrou um outro lado de seu personagem ao usar da dor para promover a campanha política e mirar Brasília.

Chega a ser engraçado (porque só rindo mesmo) a similaridade das atitudes, as frases e a postura de alguns personagens se os compararmos com figuras atuais e presentes nos poderes do Brasil. E esse é um ponto que A Divisão vai maravilhosamente bem. Além de mostrar os horrores do sequestro e nos envolver com a investigação policial, o filme critica o sistema da justiça pública e a própria política brasileira, pois no final das contas, tudo não passa de um jogo de interesses pautado no dinheiro, no poder e no próprio umbigo. Tudo isso é muito triste, porém verdadeiro, uma vez que hoje vivemos num país onde não existe o candidato perfeito e nem ao menos um lado correto na grande disputa pelo poder político brasileiro. Em suma, infelizmente vivemos numa cesta de maçãs podres.

Gostei muito da química e da dinâmica entre Silvio Guindane Erom Cordeiro. Vivendo personagens completamente diferentes em termos de atitudes e personalidade, a dupla dá um show em tela e protagoniza cenas cheias de emoção, sentimentos e com um único propósito, o senso de justiça. Em A Divisão, nos deparamos com uma versão sisuda, violenta e bem emocional de Silvio Guindane. O ator abraçou o papel e trouxe muita verdade para as telas. Seu personagem além de impôr respeito e autoridade, é implacável no combate ao crime, ele parece uma panela de pressão prestes a explodir na cabeça dos bandidos cariocas, gostei muito do que vi. Já Erom Cordeiro, fez a contraparte “mansa”, articulada e super estratégica dentro da missão proposta no filme. A dupla se complementou muito bem e ambos funcionaram como os grandes condutores de A Divisão.

Sério, reflexivo e muito bem executado, A Divisão é um filme muito bom para os fãs do gênero policial, investigação, favela e criminalidade no Rio de Janeiro. Mesmo trazendo um triste recorte da história do nosso país e do estado do Rio, o longa é necessário como uma crítica à justiça e à política brasileira. Assistam no cinema!