O Relatório

Em 7 de novembro, chega aos cinemas brasileiros O Relatório, cinebiografia estrelada por Adam Driver. Essa crítica NÃO CONTÉM SPOILERS!

Siga nossas redes sociais:

Mas afinal, o filme é bom?

Após os ataques de 11 de setembro, os Estados Unidos iniciaram a sua infame campanha denominada de “Guerra ao Terror”. Com a desculpa de proteger os seus, a CIA usou o dinheiro dos contribuintes para financiar barbáries contra outros seres humanos. Essa é a mancha mais recente na História americana. Algo que era suspeitado por todos, mas só foi provado após a publicação de um relatório oficial do Senado.

A trama narrada por O Relatório é justamente sobre a luta de como trazer à luz um documento que incriminaria a agência de inteligência mais poderosa do mundo. Sob o comando da Senadora do Estado da Califórnia, Dianne Feinstein (Annette Bening), o Comitê de Inteligência do Senado começou um estudo sobre a chamada Técnica Melhorada de Interrogatório (TMI), utilizada pela CIA com o aval da Casa Branca. Para liderar tal tarefa, foi designado o investigador Daniel J. Jones (Adam Driver), formado em Harvard e ex-FBI.

Optando por avançar rapidamente na linha do tempo dos acontecimentos, O Relatório foca nos fatos relevantes de uma investigação que deveria durar um ano, mas acabou se estendendo por cinco. Ainda que volte no tempo para mostrar os atos extremos executados pelos agentes da CIA, o filme é único em optar por dar destaque à exaustiva pesquisa de Jones e sua quase inexistente equipe. De maneira alienante, o herói é mostrado apenas em seu local de trabalho. O espectador não sabe absolutamente nada da vida pessoal de Jones, fato que se espelha no Daniel J. Jones da vida real.

Por isso a escolha do ator para representá-lo era tão crucial. Para quem já viu uma das inúmeras entrevistas de Jones, sabe que o carismático investigador deveria ser interpretado não só por alguém amado pelo público, mas capaz de expressar toda indignação, fúria, frustração e impotência de um homem posto contra toda uma máquina de inteligência. Daí a escolha inquestionável de Driver. A performance é absorvida ao ponto de todos os seus trejeitos pessoais desaparecerem, devolvendo o carisma e confiança que já foram vistos em Infiltrado na Klan ou Silêncio. E tudo isso rodeado por um elenco de apoio de peso, que inclui Michael C. Hall, Jon Hamm e Corey Stoy.

Então a decisão do diretor e roteirista Scott Z. Burns de focar apenas na faceta profissional não foi um ponto baixo. Se houvesse exploração das relações pessoais de Jones, algo de crucial teria de ser deixado de fora. O Relatório é distintamente dividido em duas partes: a descoberta das práticas de tortura e as manobras da CIA e do Poder Executivo para que a sociedade nunca tivesse conhecimento deste relatório. E fica difícil saber qual cadeia de acontecimentos é mais perturbadora.

Daí deriva o possível ponto fraco do filme. Se você, como eu, se interessa e tem fascinação por Política Internacional e/ou pelo que o ser humano é capaz em situações extremas, não será nem um pouco afetado por esse detalhe. O fato é que Burns, ao escrever O Relatório, supôs que você sabe tudo o que aconteceu na política norte-americana pós atentado de 11 de setembro.

E quando eu digo tudo, é TUDO mesmo. Ao citar a “Sra. Rice”, não explicará a figura da controversa Conselheira de Segurança Nacional de George Bush, muito menos seu papel na Guerra do Iraque. Se você não sabe quem é Dick Cheney, homem que verdadeiramente governou os EUA na era Bush, também perderá o fio da narrativa. E se acredita que Obama foi o mais perfeito dos presidentes americanos, bem…prepare-se para o choque.

Mas essa não deve ser uma desmotivação. Durante duas horas, às vésperas da comemoração dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, O Relatório apontará dedos para Democratas e Republicanos para que esses reconheçam sua parcela de culpa nos atos análogos aqueles que tornaram os nazistas os grandes vilões da Humanidade. Talvez esta seja a oportunidade para começar a conhecer a verdadeira História do país mais desenvolvido do mundo, cuja democracia pode ser quase tão deturpada quanto a nossa.