Green Book: O Guia

Em 24 de janeiro chega aos cinemas brasileiros Green Book: O Guia, vencedor de três Globos de Ouro e indicado ao Oscar de melhor filme. Fique tranquilo, essa crítica NÃO CONTÉM SPOILERS!

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Mas afinal, o filme é bom?

Ambientado em 1962, Green Book: O Guia é baseado na história real da improvável amizade entre um ítalo-americano e um negro em pleno apartheid. Anthony Vallelonga, conhecido como Tony Bicudo (Viggo Mortensen), precisa de um emprego temporário durante a reforma da boate na qual trabalha como segurança. Com a reputação de resolver qualquer problema, Tony acaba sendo chamado pelo Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), um renomado pianista.

Com uma turnê marcada pelo sul dos EUA, Shirley precisará não só de um motorista que o leve de Nova York ao Alabama, mas também de um guarda-costas que o proteja de ataques racistas. Não podendo recusar o bom pagamento, Tony engole seu próprio racismo e aceita ser o subordinado de um negro. Assim começa a viagem da dupla, onde Tony deverá seguir o chamado Green Book (“livro verde” em português), guia que especifica os hotéis e restaurantes que aceitam a entrada de negros.

Uma das maiores manchas na história recente dos EUA, a segregação racial foi e continua sendo terreno fértil para narrativas. Feito para ser facilmente digerido pela audiência, Green Book: O Guia acaba usando diversos clichés para servir ao seu propósito de mostrar a desumanização sofrida pelos negros. Ao assistir o filme, você saberá exatamente pelo quê os personagens passarão. Ainda sim, de maneira surpreendente, algo o fará admirar a produção e concordar com toda a atenção que ela vem recebendo. Esse algo, na realidade, são dois: Mortensen e Ali.

Em tempos de apropriação cultural e politicamente correto, Viggo Mortensen relutou em aceitar o papel e correr o risco de ofender a comunidade ítalo-americana. Mas basta observá-lo roliço como uma mortadela, falando pelos cotovelos e gritando ‘Vaffanculo!’ para duvidar que sangue carcamano não corre naquelas veias. Ainda dono de um inegável charme, Mortensen transcendeu todos os clichés étnicos e emergiu com um personagem empático e verdadeiro.

Porém, são os olhares de desapontamento e fúria silenciosa de Mahershala Ali que continuam em nossa mente depois dos créditos finais. Enquanto seu parceiro trabalhou com o simplório Tony, Ali teve a chance de explorar o conflito interior de um homem que não encontra seu lugar na sociedade. Shirley é, em suas próprias palavras, “branco demais para ser negro, mas não o suficiente para ser verdadeiramente branco”. Suas roupas finas e elegância provocam olhares de reprovação em outros negros, como um escravo da Casa Grande em meio à Senzala. Já a comunidade branca, o trata como um animal de circo: aplaudido após sua apresentação, mas deve ser imediatamente devolvido à jaula.

A construção da amizade entre dois personagens tão reais e opostos é cheia de drama e comédia. Mas afinal, assim é a vida. Enquanto Don refina o gosto de Tony e aprende uma cultura mais simples, ambos se deparam com as ironias e hipocrisias da segregação. Como um sistema desumano permitiu que o ódio velado nascesse em ambos, perpetuando a divisão entre as raças. Tony é racista ao supôr que Shirley gosta de frango frito por ser negro, mas o crime é o mesmo quando o pianista o acusa de ter instaurado o apartheid por ser branco.

Filmes sem um aprofundamento tendem a ser esquecidos. Green Book: O Guia, com a sua visão única de um fato específico na História, não sofrerá o mesmo destino. Optando por uma narrativa simples, o diretor Peter Farrelly foi capaz de trazer à tona uma discussão que ainda se faz válida nos dias de hoje. Todos somos culpados em algum grau pelas segregações que ainda existem em nossa sociedade. Esse ciclo só se rompe quando admitimos nossos próprios preconceitos e percebermos que existe uma diferença gritante entre apropriação e compartilhamento cultural.