Vice

Em 31 de janeiro chega aos cinemas brasileiros Vice, biografia do ex-vice-presidente americano Dick Cheney estrelada por Christian Bale. Fique tranquilo, essa crítica NÃO CONTÉM SPOILERS!

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Mas afinal, o filme é bom?

Apesar de garantir a Christian Bale o Globo de Ouro de melhor ator em comédia ou musical, Vice dividiu opiniões em seu lançamento. Parte da crítica americana amou o filme, enquanto a outra metade simplesmente odiou. Mas essa é a nova ordem mundial quando o assunto é visão política. Aquilo que vai contra às suas crenças não é bom, e isso independe de qual lado você está. Mas, como brasileiros, podemos ter uma visão mais imparcial sobre Vice (ou, ao menos, tentar).

Para aqueles que já eram vivos em 11 de setembro de 2001 e têm lembranças vívidas do dia, não será difícil lembrar a política adotada pelos EUA nos anos que se seguiram. Por meio da biografia do homem que governava o país, Vice mostra os eventos que levaram à chamada “Guerra ao Terror” e suas consequências para a política internacional. E, não. O filme não é sobre George W. Bush.

Vindo de Wyoming, Dick Cheney (Christian Bale) desperdiçou sua chance em Yale por conta de festas e bebidas. Depois de sofrer um ultimato de sua esposa Lynne (Amy Adams), ele endireita sua vida e parte para a política. Com a ajuda de Donald Rumsfeld (Steve Carrell), homem que o levou a se interessar pelo partido Republicano, Dick logo se vê como Chefe de Gabinete da Casa Branca, conhecendo os bastidores do governo Nixon.

Depois do escândalo de Watergate, que culminou na renúncia do presidente Nixon, Dick vai ganhando um papel cada vez maior no governo. O presidente Ford (Bill Camp) não apenas ouvia as ideias do Chefe de Gabinete, mas era cativado por elas. Com seu perfil observador e fala mansa, foi Dick quem convenceu Ford de que bombardeios em vilarejos acabariam com a Guerra do Vietnã. E ele não estava errado.

Será representante do estado de Wyoming e Secretário de Defesa. A única coisa que o impede de se candidatar à presidência é a orientação sexual de sua filha Mary (Allison Pill), que o faria perder votos entre os conservadores. Assim, anos depois, se contenta em ser vice-presidente de George W. Bush (Sam Rockwell), desde que seu cargo tenha alguns ajustes. Aproveitando-se da inexperiência da ovelha-negra da família Bush, Dick consegue uma autonomia nunca antes dada a um vice.

Diferente de outras biografias, Vice nem ao menos tenta humanizar Dick Cheney. Hoje, o mundo sabe das mentiras contadas para justificar a invasão dos EUA ao Iraque e como o desejo pelo controle dos meios de energia criaram o ISIS, custando inúmeras vidas americanas e iraquianas. Mas a demonização não é apenas deste homem, mas da América como um todo. O filme não falha em mostrar os atos desumanos e vergonhosos dos soldados americanos, que mancharam irremediavelmente a reputação do país. Dick pode ter sido extremo, mas deu aquilo que o povo americano queria.

No filme Nixon de 1995, o diretor Oliver Stone retratou o ex-presidente com um ar vampírico, sugando a vida de todos ao seu redor. Em Vice, fica a impressão que Adam McKay quis que seu Dick Cheney fosse um zumbi. Diversas vezes somos levados a pensar que é o fim da sua vida ou de sua carreira política, apenas para vermos ele se levantar mais uma vez.

Sem medo, McKay se aproveita de várias metáforas, o que pode acabar cansando o espectador. Mesmo assim são inteligentes e vale prestar atenção nelas. Como o fato de Cheney amar pescar e trazer essa caçada paciente e silenciosa para o trabalho, jogando suas ideias torpes como iscas e esperando que políticos poderosos as mordam. Ou quando sofre um transplante de coração, sendo o doador um ex-combatente na guerra do Iraque. Um jovem morre para dar mais alguns anos de vida ao velho político insensível.

Durante a edição final, McKay disse não ter certeza de qual é o gênero do filme, e essa dúvida é evidente. Sem a certeza se Vice é uma crítica, comédia ou sátira, muitas vezes fica difícil acompanhar o tom do filme. A comédia não é certeira como em O Lobo de Wall Street, por vezes parece desconexa e não deixa clara a mensagem que o diretor queria passar. Pelo menos, não até depois dos créditos. Enquanto o filme inteiro parece mais uma propaganda liberal, é apenas na cena pós-créditos que conhecemos o alvo das críticas de McKay. Enquanto liberais e conservadores brigam, o resto da população se desinteressa por política. Deixando o caminho livre para políticos governarem sem a fiscalização do povo.

Com um elenco invejável, Bale obviamente fica com o destaque por toda a desconstrução de sua aparência física. Porém, devemos ser justos e reconhecer que não existe Dick sem Lynne. Se você duvida, basta procurar uma entrevista do verdadeiro casal Cheney. Fica claro que o trabalho de Bale só se completa graças ao esforço de Adams em acertar em cheio na performance da sua companheira.

Apesar de não estar livre de falhas, o filme é merecedor do destaque que vem recebendo. De maneira simples, aborda um tema recente que ainda tem detalhes desconhecidos por boa parte da população. Eventos que mudaram a forma de fazer política no mundo e também a História. Não importa se você se interessa pelo jogo político ou ficou traumatizado com as nossas eleições de 2018, Vice deve sim ser visto e apreciado, mas sem a lente de ideologias.