o peso do passado

Em 17 de janeiro, chega aos cinemas brasileiros O Peso do Passado, thriller policial estrelado por Nicole Kidman. Fique tranquilo, essa crítica NÃO CONTÉM SPOILERS!

Siga nossas redes sociais:

Mas afinal, o filme é bom?

Nos últimos anos, Nicole Kidman entrou em uma de suas fases mais produtivas. Porém, posso garantir que você nunca a viu em um papel como o de O Peso do Passado. Muitas vezes criticada pelas plásticas ou pela vida pessoal, mais uma vez a atriz mostra o porquê já foi indicada três vezes ao Oscar.

A trama segue a vida de Erin Bell (Kidman), uma policial alcoólatra e divorciada. Novos fatos a levam para um antigo caso que mudou sua vida. Dezessete anos de ódio serviram, não apenas para afastar todos ao seu redor, mas também para alimentar o desejo de vingança pelo criminoso Silas (Toby Kebbell). Dividido em duas linhas temporais, O Peso do Passado transita entre o passado e o presente para construir lentamente os reais motivos que não permitem Erin seguir com sua vida.

Antes de completar 30 anos, Erin foi designada pelo FBI para uma missão com o agente Chris (Sebastian Stan). Agindo disfarçados, ambos deveriam se infiltrar na gangue de Silas para obter provas que o levassem para a cadeia. Mas tudo começa a dar errado quando o romance de mentira passa a ser real, tornando as prioridades de Erin e Chris cada vez mais distantes da inicial.

Sabemos que a missão falha miseravelmente. Chris acaba morto e Silas foge, transformando Erin na mulher amargurada a quem somos apresentados na primeira cena. Os anos foram cruéis com a policial, seu envelhecimento a tornou no tipo de pessoa que sequer olhamos duas vezes na rua. E esse é seu maior trunfo. Ninguém espera que Erin seja capaz de capturar o homem que lhe escapou a tantos anos. Mas uma alcoólatra que perdeu toda a sua dignidade, pouco mais tem a perder.

Com uma personagem construída de maneira impecável, o filme é todo de Kidman. Todos os atos de Erin Bell deixam claro que esta não é uma boa mulher. Mas afinal, quem é totalmente bom? Porém, por mais difícil que seja, a empatia pela policial é construída pouco a pouco, seja pelo seu luto ou pela falta de controle sobre sua filha Shelby (Jade Pettyjohn).

Aos 51 anos de idade, pode parecer forçada a ideia de colocar Kidman como uma jovem na casa dos 20, mas não é. Diferente de sua personagem, a atriz envelheceu muito bem. Sua beleza natural, somada à maquiagem com sardas, faz com que a diferença de idade com Stan não seja tão gritante. Claro que a química óbvia entre os dois torna tudo mais fácil.

O único ponto baixo do filme, ironicamente, é a caracterização de Erin ao se aproximar da idade da atriz. Se por um lado a escolha das roupas sem personalidade e o cabelo cor de rato foram um acerto, a maquiagem afastou a detetive da realidade. Infelizmente, por mais trabalhadas que a pintura e cicatrizes tenham sido, nada consegue tirar a aparência emborrachada. É a única coisa que impede o filme de ser perfeito. Ainda sim, acaba dando a impressão que a jovem Erin usa a máscara dessa perturbada policial.

Com uma montagem inteligente e belas tomadas da diretora Karyn Kusama, seja em cenas fechadas ou nas paisagens sem glamorizar Los Angeles, O Peso do Passado é mais um daqueles filmes que nos dão uma satisfação com culpa. Essa vingança sem qualquer pudor sempre nos chamou a atenção. Fazer justiça com as próprias mãos não é politicamente correto, mas nenhum de nós consegue desviar o olhar quando ela está sendo posta em prática.