entrevista com Tessa Thompson

A entrevista com Tessa Thompson aconteceu depois da CCXP 2018

Durante a passagem pelo Brasil, o editor-chefe do Nerd Break, Fábio Hurtado, participou da entrevista com Tessa Thompson, e a atriz falou sobre sua personagem em Creed II, o novo filme da franquia que estreia no dia 24 de janeiro de 2019, confira o trailer abaixo:

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Música é uma característica importante da sua personagem. Gostaria de saber como você construiu sua musicalidade e a preparação para o papel.

Meu pai é músico, então eu literalmente cresci no estúdio dele. Música sempre foi uma grande parte do meu mundo. Eu uso muito a música quando estou trabalhando em um personagem. Mas eu nunca compus dessa maneira antes, então a primeira vez foi totalmente assustadora e muito divertida. Sentei no estúdio com Ludwig Göransson, trabalhamos por duas semanas e escrevemos cerca de 10 músicas. Atiramos para todos os lados para ver o que funcionava, sabe?

Música significa tudo para Bianca. Em Creed: Nascido para Lutar, você literalmente a ouve antes de vê-la. É algo realmente importante para ela. Dessa vez, queríamos que esses personagens sentissem que evoluíram e amadureceram. Então, tivemos a oportunidade de usar a música para expressar isto em Bianca. Ela começa como uma artista independente, já que eu escrevi as músicas no primeiro. Eles não tinham estrutura, tudo parecia bem experimental e nem era de propósito, eu ficava tipo: “nem sei qual música é essa”(risos). E alguns amigos apareciam, como Moses Sumney, e tocavam conosco.

Desta vez, queríamos que a música dela realmente parecesse evoluída. Mas não porque ela se vendeu, e sim pelo fato dela possuir esse relógio dentro de si que a impulsiona a levar sua música ao maior número possível de pessoas. Ela contrata um radio-sensibilizador e assina com a gravadora. Então eu cantei em um lugar diferente, tínhamos pessoas como James Fauntleroy e Bibi Bourelly, que é uma artista incrível e escreveu Bitch Better Have My Money para Rihanna. Ela escreve essas músicas para rádio, escrevemos juntas. Gostaria de levar todo o crédito, mas tive muita ajuda dessa vez. Foi ótimo explorar isso com essas pessoas e fingir ser uma cantora de verdade.

E quanto as suas influências para performances? Algum artista, dançarino que você visse antes de filmar suas cenas?

Meu Deus, eram milhares. Bem, artistas para estabelecer a vibe de Bianca, já como uma cantora estabelecida, seria FKA twigs, Kalala e SZA. Para mim, durante a preparação, foi Massive Attack, Portishead, essas músicas meio que sônicas que eu amo e sempre amei. Mas Bianca não se parece em nada com esses artistas. Minhas grandes inspirações são Prince, Grace Jones e David Bowie. Pessoas que mudam seus ideais de gênero e identidade. São em quem eu sempre penso, até ao levantar de manhã, tomo uma água de coco e decido: “hoje vamos de Prince”. Verdadeiras inspirações para a minha vida.

Creed II é um filme emocionalmente intenso. Ma sua opinião, qual lição apresentada é a mais importante?

Para mim, o que é especial sobre a franquia de Rocky e a razão dela ser tão duradoura, é que são filmes sobre amor, família e amizade. Neste filme em particular, acredito que seja mais sobre família. Essa ideia de que você carrega junto a si aqueles que importam. Essa metáfora de quem esta na sua retaguarda, sabe? Essas pessoas são o que realmente há de importante, e não essa ideia de sempre ganhar. Tematicamente, isso é muito importante. Frequentemente, as pessoas acreditam que sucesso está relacionado com o que fazemos, o quão bem fazemos ou o que possuímos. Mas, eu acredito, tudo isso que esvanece não é importante, e sim a conexão que temos com as pessoas. Sem contar a representação de que família não é só aquela em que nascemos, mas sim a que escolhemos por meio dos amigos, mentores, professores e pessoas que são próximas.

Neste filme, Bianca tem muito mais com que lidar. Ela está presente para Adonis e teve um filho, além de enfrentar seus próprios problemas e carreira. Isso me faz pensar em como as mulheres têm que ser fortes no dia-a-dia, e se destacam por essa força. Você tem alguma mulher, pública ou histórica, que sirva de inspiração nesse sentido?

Várias. Muitas delas estão vivas agora, como Michelle Obama. Dentre as que não estão mais conosco, citaria Mary Taubman. Mulheres que lidam não apenas com suas lutas pessoais, mas tomam ações para tornar a vida de outros mais fácil. Não pensam apenas em si, no micro, mas sim os problemas de modo macro e como podem agir para mudá-los. Na minha vida, tenho minha mãe como exemplo. É engraçado que, quando interpreto uma mulher forte e que tem muito com o que lidar, não consigo pensar em uma que não seja assim. Cada uma das mulheres da minha vida, seja cabeleireira, amiga ou minha mãe, todas são dinâmicas e equilibram tanta coisa ao mesmo tempo. Acredito que chegamos em um ponto que queremos ver nosso contexto refletido nos filmes, e vivemos em um mundo cheio de mulheres dinâmicas e maravilhosas (risos). Então fico feliz de fazer parte de algo que mostre isso.

Você faz parte de duas grandes franquias agora, Rocky e MIB. Existe uma pressão extra em trabalhos com uma base de fãs tão sólida?

Sim. Queria poder mentir e dizer que não, mas existe sim. Uns dois dias atrás, apresentei um trecho de MIB e estava tão nervosa. Esses trabalhos estão no patamar dos que serão vistos por milhares de pessoas. Eu amo o que faço, mas ás vezes não quero que prestem tanta atenção em mim.

Por outro lado, eu amo os filmes do Rocky, poderia assistir o primeiro uma vez por semana sem enjoar. Amo absolutamente tudo naquele filme. Como ele é feito, esse lance de ser renegado. “Quero fazer esse filme, quero produzi-lo”, nenhum estúdio acreditou nele (Sylvester Stallone). Esse filme azarão se tornou a história do azarão mais amado do mundo. E também amo os filmes de MIB. Então também existe a pressão de entrar no mundo que você ama. Como conhecer seu herói e pensar: “Por favor, seja legal”.

No caso deste filme, tudo foi ótimo. Poder trabalhar nesse projeto tem sido um sonho. A razão de eu e Mike (B. Jordan) podermos relaxar é a certeza de que estamos pegando emprestado de um universo que é rico e incrível, tudo o que Stallone conseguiu estabelecer. Além disso, criamos algo novo que conversa com essa geração. Poder ver o sucesso desse filme, pelo menos nos EUA. Ver as pessoas voltando por Creed II, por aquilo que nós estabelecemos. Novos personagens, novos ícones. É isso que eu sempre espero, mesmo que me deixe nervosa (risos).

Como foi para você conhecer o Ivan Drago?

Meu Deus, foi tão legal! E enquanto ele fazia aquele filme (Rocky IV), namorava Grace Jones e eu sou obcecada por ela. Conhecer Dolph (Lundgren) foi demais, assim como vê-lo durante o processo de filmagem. Eu e Mike conversamos muito sobre como seria voltar para um segundo filme. Só posso imaginar como foi para Dolph voltar 30 anos depois!

Ele é um vilão icônico.

Um vilão extremamente icônico! E algo que esse filme faz muito bem é humanizar os vilões de um modo que eu nunca havia visto antes. Então sua volta é até doce, trazendo luz à esse personagem que só vimos unilateralmente. Além de sua vilania, podemos ver o ser humano. Acho muito tocante aquela cena final, onde eles correm juntos e você sabe que nada é perfeito, mas a experiência os amaciou. Sem contar que torna as lutas mais sofisticadas. Você sabe pelo que passou cada um dos homens no ringue. Foi algo surreal de assistir.

Bianca não é como outras esposas de boxeadores que já vimos em outros filmes, ela é mais independente. É uma característica que sempre esteve presente no script, ou algo que você criou com o diretor?

Um pouco dos dois. Na primeira vez, Ryan Coogler sabia que ela seria uma artista, ele queria que Bianca estivesse atrás de um objetivo na vida. Ela deveria estar lutando por algo, sua ambição, e lutando contra algo, como Donis e a complicada relação com o pai e seu legado. Inicialmente, ele não sabia o que seria. Sua progressiva perda de audição não era algo que estava no script. A esposa de Coogler é intérprete de libras, então havia proximidade e curiosidade pelo assunto. Ele me perguntou se eu estaria confortável em aborda-la, meu irmão sofre de perda de audição, então é algo que tenho conhecimento.

Além dessa conversa, eu e Mike ensaiávamos e fazíamos improvisos. Coogler começou a me questionar sobre as cenas. “O que podemos fazer para melhorar?”, “O que ela diria?”, “O que ela faria?”. Tivemos muitas discussões como essa para o primeiro filme. Desta vez, com Steven Caple Jr., foi a mesma coisa. Queríamos garantir que Bianca tivesse continuidade.

Mike expressou que gostaria que Bianca engravidasse nesse filme. Já eu, estava bem reticente. Falava “Não sei, não quero engravidar. Podemos deixar para o terceiro filme? É cedo demais” (risos). Mas entendi como era importante para complicar o que estava em jogo, intensificar a jornada dos personagens. Porém, disse que não queria Bianca grávida e descalça preparando um sanduíche. Então ele colocou isso no script.

Fora as pequenas coisas. Trabalhamos muito na cena em que eles descobrem a gravidez. Eu deixei claro que era importante e deveríamos nos dedicar. É mais realístico que esses dois jovens se questionem em uma situação como esta se estão realmente prontos. Foi uma ideia que levei até eles e foi bem recebida. Nesta narrativa predominantemente masculina, era meu papel lembrá-los dessas partes.

Essa é sua primeira sequência, assim como para Michael. Como você se sentiu voltando para esta personagem em um filme grande?

Eu amei. Tenho muito orgulho de Mike, é muito poderoso um homem negro a frente da franquia. A ideia de ter que voltar para mais é incrível, significa que a audiência recebeu positivamente o filme. Essa é uma grande mudança para Hollywood e para o mundo, é animador para mim. Além disso, amo trabalhar com Mike, amo a Philladelphia e amo interpretar essa personagem.

Claro que existem coisas que você nunca pensa. Filmando o primeiro, não esperávamos uma sequência. Então pensei “Ok, interpreto alguém com perda auditiva. Agora tem mais,  para onde levará?”. As coisas mudam, o que é feito impactará o futuro da franquia. Não é o mesmo que começar do zero. É necessário pensar à frente.

Como é seu relacionamento com Michael e Stallone? No filme, podemos ver que são como uma família.

Bianca realmente ama Rocky. Uma das coisas boas da dinâmica dos três personagens é mostrar essa ideia de que família são aqueles que você escolhe. Muitas vezes nos encontramos em situações em que pensamos não nos encaixar na família em que nascemos, isso pode ser bem doloroso. É importante lembrar que família é muito mais do que isso. Aqueles que você permite em sua vida são importantes, você pode se apoiar neles. Esse é o poder o relacionamento deles.

Já eu e Mike, sempre mantemos o contato. Somos muito amigos. Isso é muito importante para Bianca e Adonis também. Claro que eles estão envolvidos romanticamente, mas existe algo platônico que permite conversarem como amigos. Muitas vezes, em Hollywood, vemos apenas o romance e não a amizade. Gosto de podermos demonstrar o reflexo do que somos na vida real. Brincamos, contamos segredos, somos amigos de verdade. E Sly é muito brincalhão, gosta de pregar peças. É uma pessoa muito dinâmica e inspiradora. Estar neste ponto da vida, onde todos acreditam que ele é Rocky, interpretando esse personagem tão bem é incrível. Mas ele é um ser humano totalmente diferente. é difícil conhecer o verdadeiro Sly, passar por essa persona que é Rocky. É muito confuso (risos).

Como tem sido conhecer seus fãs brasileiros e participar da CCXP 2018?

Tem sido demais! Sempre tive a sensação de que os fãs brasileiros são os melhores do mundo, já que tantos pediam na internet para que eu viesse. Nunca fui tão convidada para ir a um país (risos). A recepção foi incrível na CCXP, além de poder visitar lugares como o Beco do Batman. Eu realmente gostei de como as coisas são por aqui, me senti em casa.

Creed II chega aos cinemas brasileiros no dia 24 de janeiro de 2019.

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