trilha sonora de Animais Fantásticos

Em 15 de novembro chega aos cinemas brasileiros Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, segundo filme da nova franquia do Mundo Mágico de J.K. Rowling. Fique tranquilo, essa crítica NÃO CONTÉM SPOILERS!

trailer final de Animais Fantásticos 2

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Mas afinal, o filme é bom?

Ao terminar a saga Harry Potter, os pedidos para J.K. Rowling expandir o Mundo Mágico eram incessantes. Dentre os grandes apelos dos fãs, o maior destaque era para o livro de Rita Skeeter, “A Vida e as Mentiras de Alvo Dumbledore”. Ao anunciar o filme sobre o zoologista mágico Newt Scamander, a autora quase enganou seus fãs. Mas bastou dizer que a nova franquia se passaria entre os anos 20 e meados de 40, para a sua verdadeira trama aparecer: o embate histórico entre os bruxos mais poderosos da época, Dumbledore e Grindelwald.

Mesmo que não tenha aparecido em Animais Fantásticos e Onde Habitam, o futuro diretor de Hogwarts evidentemente estava entrelaçado à trama. O último filme da franquia Harry Potter pode não ter sido tão detalhado quanto os fãs esperavam, mas ninguém precisava ter lido As Relíquias da Morte para perceber que a aparição de Dumbledore era uma questão de tempo. Assim, se você se apaixonou pelo bruxo desajeitado que ama todas as criaturas mágicas, sinto em lhe informar que ele não é – nem nunca foi – o principal dessa história.

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald começa nos mostrando o que a MACUSA fez com seu prisioneiro, Gellert Grindelwald (Johnny Depp). Em uma impressionante sequência de fuga em meio à vassouras e Testrálios, o vilão mostra o porquê será admirado por Voldemort e segue para a França ao lado de seus seguidores. Ainda confiando em seu plano original, Grindelwald espera conseguir a confiança de Credence (Ezra Miller) e utilizar os poderes do obscurus para a sua causa.

Enquanto isso, Newt Scamander (Eddie Redmayne) tenta convencer o Ministério da Magia a retirar sua proibição para viagens internacionais. Ao se recusar a assumir o posto de Auror ao lado de seu irmão Theseus (Callum Turner) na caça à Credence, Newt deve desafiar as leis mágicas para proteger o garoto mais uma vez. Mesmo que tenha lhe parecido um ato espontâneo, a verdade é que, assim como fez com Harry, Dumbledore (Jude Law) guiou o caminho de Newt à Nova York. Vendo o que outros não são capazes, o professor enxerga Scamander como um meio de enfrentar Grindelwald, incitando-o a ir à Paris.

E é la onde novos e antigos personagens se encontrarão. Reinstaurada como Auror, Tina Goldstein (Katherine Waterston) também inicia sua busca por Credence, mas permanece apática e desinteressante. Jacob (Dan Fogler) está livre do feitiço obliviador e retomou seu romance com Queenie (Alison Sudol). Porém, as normas contra relacionamentos com trouxas e a enxurrada de pensamentos alheios começam a trazer um lado desolador da legilimens à superfície. Já a grande surpresa, foi minada pela própria Warner Bros. Com pouco tempo de tela, a revelação da identidade de Nagini (Claudia Kim) deveria ter sido deixada para o fim e lhe render importância.

Aqueles que foram destaque no primeiro filme, continuam bem aqui. A imprevisibilidade do papel de Miller se mantém. Credence busca suas origens e a linha entre o bem e o mal fica cada vez mais tênue, o que o torna o personagem com mais possibilidades à sua frente. Por outro lado, Redmayne vai perdendo espaço na trama, mas a culpa não é sua. Por mais que continue o bom trabalho como o adorável bruxo, nem mesmo o triângulo amoroso formado com seu irmão e Leta Lestrange (Zöe Kravitz) é o bastante para desviar a atenção de que Newt foi arrastado para uma situação maior do que ele pode controlar.

Sendo assim, são os bruxos mais notórios que brilham em Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald. Depois de todo o drama de sua turbulenta separação na vida real, muitos torceram o nariz para Depp como Grindelwald. Alegando que o ator “envenenava o Mundo Mágico”, alguns fãs viram mais uma vez J.K. Rowling contrariar seus apelos e manter a escolha. E ainda bem que ela o fez. O vilão é fruto da mente da autora, escolher desapontar aqueles que asseguraram seu sucesso só poderia significar uma coisa: ela via Grindelwald em Depp.

O homem que nunca teve medo de figurinos excêntricos repete aqui a desconstrução da sua aparência física para dar vida ao carismático vilão. Mesmo que o ano seja 1927 e o Partido Nazista nem tenha chegado ao Reichstag, fica óbvio que Grindelwald é o espelho de Hitler. Um líder que encanta e persuade o povo de maneira sutil. Aponta a violência dos Aurores para esconder a sua própria, levando seus seguidores a acreditarem que qualquer agressão para defendê-lo é justificável. Desperta o fanatismo popular ao alegar estar agindo pela liberdade de cada um ser quem é e amar quem quiser. Mas no fim, essa liberdade tem um preço. Hitler, Stálin, Mussolini e Fidel mostraram qual. A incapacidade do povo em ver que a liberdade já lhe foi tomada lentamente, além da morte de toda a oposição que tenta oprimir essa dita “liberdade”.

E para confrontar tal homem, vem aquele que rouba para si todas as cenas em Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald. Inegavelmente, Michael Gambon foi um grande Dumbledore, entrando em uma franquia que já havia iniciado. Mas, para aqueles que leram os livros, Richard Harris deixou um vazio por ser a encarnação perfeita do personagem. E basta olhar suas fotos antigas para entender porque Jude Law foi escalado. Nariz reto e olhos claros, alto, esguio e atraente – enquanto você e Rony Weasley achavam que Dumbledore tinha nascido velho.

Mas já faz um tempo que Law deixou de ser apenas o galã. Mesmo com cenas pontuais, ele tem a oportunidade de mostrar as características paternais do homem que sempre guiou Harry Potter para a morte, mas foi incapaz de se proteger do afeto que sentiria por ele. Ao vê-lo conversar com Lestrange e defender Newt, é possível conectar com o homem que confiou em Snape e ficou entre Hagrid e o Ministério. Fica nítido que ele desafiará o homem que um dia já amou para salvar a vida de trouxas e bruxos. Dumbledore sairá vencedor por ter aquilo que falta em Grindelwald, amor ao próximo e culpa. Culpa pela morte da irmã Ariana, uma obscurus. E, principalmente, culpa pelo seu reflexo no espelho de Ojesed – afinal, o professor mentiu para Harry ao dizer que se via segurando um par de meias novas.

Fica fácil perceber que Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald é um filme de transição. A busca por criaturas mágicas se tornou na alvorada da guerra que mudará toda a comunidade bruxa. Alguns podem ter a sensação de que nada foi explicado, mas é essa a ideia. Com mais três filmes pela frente, os problemas apenas começaram a ser apresentados. E alguns vão partir o seu coração. Porque isso é J.K. Rowling. Se manter como roteirista permitiu que a escritora introduzisse tudo o que teve que deixar de fora em Harry Potter. Além disso, impediu que o mais lendário dos bruxos da sua imaginação fosse pobremente explorado. Basta que ela consiga amarrar tão bem as pontas soltas como em um livro.

Quanto ao visual, depois de certos problemas – Harry Potter e o Cálice de Fogo – o Mundo Mágico encontrou quem o traga a vida: David Yates. Tudo é grandioso, explosões e feitiços. Criaturas bem elaboradas e muita luz e cor. Ele sim, conseguiu trazer mágica para as telas. E parece aperfeiçoá-la a cada filme. Tudo unido a um figurino deslumbrante. Com a promessa de retratar os países que tenham escolas de magia, Yates e Rowling mostram em Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald que são mais do que capazes de permitir que vários leitores vejam a sua nação representada nesse mundo. Mas, dessa vez, não existe livro para dar vantagem. Agora estamos todos no escuro.