Claire Foy A Garota na Teia de Aranha

Em 8 de novembro chega aos cinemas brasileiros Millennium: A Garota na Teia de Aranha, baseado na série literária iniciada por Os Homens que não Amavam as Mulheres. Fique tranquilo, essa crítica NÃO CONTÉM SPOILERS!

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Mas afinal, o filme é bom?

Talvez a resposta para essa pergunta não seja tão simples quanto você imaginava. Em 2004 morria o aclamado jornalista sueco Stieg Larsson, deixando sua obra prima incompleta. O que deveria ser uma série de dez volumes, se tornou a Trilogia Millennium. Publicados em 2005, os livros se tornaram um sucesso tão absoluto que 1 em cada 4 suecos os leram. Traduções não autorizadas apareceram pela internet e muitos se apaixonaram pela história muito antes de terem o livro em mãos.

Junto à sua difusão oficial pelo mundo, veio a primeira adaptação em 2009. Trazendo Noomi Rapace como a hacker Lisbeth Salander, a versão escandinava foi fiel e assertiva. Mas os americanos ainda nutrem um pavor por filmes legendados. Como resposta, em 2011, David Fincher lançou sua versão para o primeiro volume da série. Millennium: Os Homens que não Amavam as Mulheres trazia Rooney Mara e Daniel Craig nos papéis principais.

Ok, mas e daí? E daí que Mara acabou sendo indicada ao Oscar por sua atuação, cravando sua imagem como a representação correta da personagem. Porém, Lisbeth Salander é, sem sombra de dúvidas, uma das personagens mais complexas da literatura contemporânea. Aqueles que a conheceram pelos livros sentiram que a personagem foi bem representada, mas algo ainda faltou.

Em 2015, é lançada a continuação da até então trilogia, A Garota na Teia de Aranha. A parceira de Larsson veio a publico comunicar que possuía o manuscrito incompleto do quarto livro, e anotações referentes aos três volumes seguintes. Terminado por David Lagercrantz, o livro não conseguiu atingir o padrão da escrita de Larsson. Mas, a ganância de um lado e a curiosidade do outro falaram mais alto, sendo que o quinto livro foi lançado no ano passado – O Homem que Buscava sua Sombra.

Sendo assim, ao ir aos cinemas assistir Millennium: A Garota na Teia de Aranha, você deve ter em mente que sua fonte é sim inferior à da adaptação de 2011. Expectativas em seus devidos lugares, agora sim a crítica pode começar. A decisão de recomeçar a franquia pelo quarto livro foi no mínimo inusitada. Se quiseram usar a quebra de estilos como ponto de partida, é difícil dizer. Mas a audiência já sofre a seleção natural. Começando pelos personagens, já que a apresentação não será refeita.

Anos após o caso Vanger, Lisbeth Salander (Claire Foy) é agora uma conhecida hacker que encontrou sua vocação como a justiceira de crimes misóginos. Ao ser contratada para mais um trabalho, Lisbeth acaba atraindo a atenção do governo sueco, americano e do grupo terrorista denominado ‘Aranhas’. Assustado com o perigoso sistema que desenvolveu, Frans Balder (Stephen Merchant) procura os serviços da hacker, mas acaba se tornando um alvo ao pensar que foi traído por Lisbeth.

Sem ter a quem recorrer, Lisbeth pede ajuda a Mikael Blomkvist (Sverrir Gudnason). Mesmo após três anos de afastamento, o jornalista não consegue dizer não à figura que lhe rendeu as melhores histórias. Em busca para impedir os males que o programa pode causar, ambos acabam percebendo que a resposta está no passado. Por trás de tudo, se encontra a mais afetada pela rotina de abusos do pai de Lisbeth, sua irmã Camilla (Sylvia Hoeks).

E aqui nasce um problema. Sem os fatos narrados nos livros 2 e 3, fica impossível entender o distanciamento dos personagens e a fonte da desconfiança de Lisbeth quanto aos homens. A garota socialmente desajustada é fruto da violência do próprio pai, pertencente à Máfia russa. O confronto leva à inevitável morte do mafioso pelas mãos de Lisbeth. Todo o ocorrido foi mostrado por Mikael em sua revista Millennium e, mais uma vez, o repórter lucrou narrando os feitos da heroína. Assim, por mais que a trama não seja tão elaborada como a do primeiro livro, fica difícil garantir que todos terão a mesma experiência ao assistir o filme.

Mas nem tudo está perdido. A demora de Larsson para lançar seus livros já completos podem ter dois motivos: ou ele subestimava sua heroína, ou sabia que havia criado uma personagem única. Acredito no segundo. Lisbeth Salander é a heroína feminista perfeita para os dias atuais, onde rótulos são mais importantes do que ações. Lisbeth não grita exigindo igualdade, nem por um segundo essa mulher cogitou a possibilidade de ser menos capaz do que qualquer homem. A baixa estatura, magreza e inabilidade social podem fazer com que a subestimem, mas as consequências são duras.

Lisbeth não consegue ver a injustiça sem dar o troco. Seu alvo evidente é o crime contra a mulher. Mas não se trata de sororidade, é apenas justiça. Enquanto a sociedade briga para que a nomenclatura ‘feminicídio’ seja usada e continua a segregar os termos que definem agressões de acordo com o gênero, homens continuam a se safar com crimes passionais e privilegiados. Para Lisbeth, um crime é um crime. Ela conduz seu julgamento e aplica uma dura pena para homicídios, espancamentos e estupros. Termos elaborados não servem para nada.

Por essas características, a versão de Mara parece ter sido mais do que perfeita. Porém, como disse antes, Lisbeth é complexa. A adaptação de 2011 acertou em todas as características da Síndrome de Asperger, mas esqueceu de dar emoção à personagem em mais momentos do que na dor. Muitas vezes sem expressão, Lisbeth parecia estar com Mikael para passar o tempo. E até mesmo ele agia como se fosse um favor passar o tempo ao seu lado. E é aí que Millennium: A Garota na Teia de Aranha ganha de seu antecessor.

A inglesa Claire Foy pode ter alcançado a fama com The Crown, mas os que assistem a TV britânica estão acostumados com seu rosto. Sua interpretação aproxima Lisbeth do público que, diferente dos livros, não pode ler seus pensamentos. Na pele de Foy, podemos perceber que a heroína não é uma máquina movida à misandria, mas sim uma bad-ass guiada por uma rígida bússola moral. Nesse ponto, sua atuação se aproxima muito mais a de Rapace – por mais que seja subestimada, a adaptação escandinava é essencial para os fãs da série.

Inegavelmente mais talentosa do que Mara, Foy usa apenas os olhos para entregar o mínimo que Lisbeth deixa transparecer de fraqueza. Sem isso, fica impossível entender a importância que Mikael realmente tem em sua vida. Aqui fica claro que o repórter foi o único homem que Lisbeth algum dia chegou a amar. Em uma rápida cena no banheiro, Foy e Gudnason entregaram o que Mara e Craig não conseguiram em um filme inteiro. Mesmo sem a diferença de idade marcante, lá estão a Lisbeth e o Mikael do livro. Personagens que encontraram o seu igual, mas não sabem mais o que existe entre eles.

O fato é que Millennium: A Garota na Teia de Aranha é um filme que está fadado a não receber o devido crédito. As comparações são inevitáveis, e dividirá opiniões. O visual frio e ótima edição continuam lá, mas a trama não ajuda. Porém, a personagem que vem tomando um rumo diferente ao que Larsson provavelmente previu, merecia que Claire Foy contasse sua história completa. Mesmo que ocorra a aceitação de boa parte dos seguidores de Salander, fica difícil prever qual será o destino da personagem nos cinemas.