bastidores de O Doutrinador

No dia 01 de novembro chega aos cinemas O Doutrinador, o primeiro filme nacional baseado numa HQ brasileira. Essa crítica NÃO CONTÉM SPOILERS!

trailer de O Doutrinador

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Mas afinal, o filme é bom?

O Doutrinador é um anti-herói no melhor estilo dos vigilantes dos quadrinhos. O Doutrinador é Miguel, um agente federal altamente treinado que vive num Brasil cujo governo foi sequestrado por uma quadrilha de políticos e empresários. Uma tragédia pessoal o leva a eleger a corrupção endêmica brasileira como sua maior inimiga. E ele começa a se vingar da elite política brasileira em pleno período de eleições presidenciais, numa cruzada sem volta contra a corrupção.

O Doutrinador é o perfeito reflexo da descrença do brasileiro em relação à máquina política que rege o nosso país. O filme é honesto ao retratar a insatisfação, saturação e raiva que o cidadão de bem tem para com a patifaria que os políticos e o sistema fazem com o nosso Brasil. Você trabalha, rala todos os dias, batalha muito para conseguir e conquistar as coisas, enquanto os corruptos pintam e bordam às custas do nosso suor.

Em tempos em que o país está dividido por conta do “Ele Sim”, “Ele Não”, O Doutrinador chega aos cinemas passando algumas mensagens importantes. Primeiro, ninguém aguenta mais ser chamado de idiota pelos políticos que fazem promessas e discursos bonitos, mas na prática roubam o nosso dinheiro e não apresentam melhoria e evolução nenhuma para o país. Segundo e extremamente importante, por mais que muitos de nós já tenhamos dito em tom de brincadeira: “tinham que jogar uma bomba em Brasília e acabar com os corruptos”, a violência nunca é o caminho. O filme deixa mais do que claro que o sistema do nosso país está corrompido desde a sua raiz. Não basta cortar a cabeça da hidra, você precisa combater o mal na fonte, pois senão ele nunca terá fim.

Bebendo da fonte dos super-heróis americanos, O Doutrinador traz várias referências em termos de dinâmica, postura e estética, que nos remete aos ícones da Marvel e da DC Comics. Não existe inovação nesse sentido, somente o uso da inspiração e a adaptação para a nossa realidade. Contudo, vale ressaltar que essa observação não é negativa e tampouco descredibiliza o filme.

Um ponto que acho que poderia ter sido melhor, foi o desenvolvimento da transformação do protagonista em si. Um evento o leva a tomar a atitude de querer limpar o país, porém, achei que foi tudo muito corrido e jogado. Se essa apresentação tivesse acontecido ao longo dos episódios de uma série, acredito que os elementos que construíram o herói teriam sido melhor apresentados e construídos.

Os acabamentos de algumas cenas também deixaram a desejar. Faltou cuidado da direção para se atentar em alguns detalhes estéticos como as cicatrizes, marcas de bala e alguns ângulos de câmera que poderiam ter sido melhores. Contudo, tirando esses pontos, o longa foi bem ambientado, trouxe uma paleta de cores sombria, cenas em plano aberto muito bonitas e uma pegada hollywoodiana bem legal. O Doutrinador mostra que o Brasil é capaz de ter os seus próprios heróis sem a necessidade de ficar usando farda e subindo morro para salvar o dia.

Kiko Pissolato traz para as telas a fúria e indignação do povo brasileiro. É triste dizer, mas acredito que muitos fariam a mesma coisa que O Doutrinador se tivessem coragem. O ator entrega uma atuação honesta, verdadeira e brutal. Ele abraçou o personagem e nos mostrou toda a sua ferocidade e disposição física para fazer justiça com as próprias mãos. Para você ter ideia do que estou falando, comparo sua entrega à do ator americano Jon Bernthal, que viveu algo muito semelhante na série da Marvel•Netflix, Justiceiro.

O Brasil vive um momento sociopolítico muito frágil, porém importante. A população não aguenta mais ser chamada de idiota e clama por mudanças. Extremismo, conformismo e cegueira não são a solução. O nosso país precisa se unir para combater de forma incansável e através da justiça, aqueles que por anos e anos destruíram a nossa nação. O Doutrinador chega aos cinemas como um grito desesperado por mudança e transformação. Encarem o filme com esse olhar e não deixem a violência inflamar os seus corações. Precisamos de justiça, mas acima de tudo, a paz e o amor têm que prevalecer.