1ª temporada de O Mundo Sombrio de Sabrina

Em 26 de outubro chega ao catálogo da Netflix a 1ª temporada de O Mundo Sombrio de Sabrina, spin-off de Riverdale. Mas fique tranquilo, essa crítica NÃO CONTÉM SPOILERS!

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Mas afinal, a 1ª temporada de O Mundo Sombrio de Sabrina é boa?

Se você foi sortudo o suficiente para ter vivido sua infância nos anos 90, então é grande a possibilidade de que tenha assistido Sabrina, a Aprendiz de Feiticeira. Estrelada por Melissa Joan Hart, a leve comédia sobre o dia-a-dia de uma adolescente bruxa fez tanto sucesso que rendeu animações e filmes. Baseada nos quadrinhos da Archie Comics, a personagem perdeu seu apelo no início dos anos 2000, junto à todas as outras publicações da editora.

Depois de uma grande reformulação e brigas judiciais, a Archie Comics começou a preparar seu retorno em julho de 2010. Em três anos as vendas cresceram 410%, tornando a editora um alvo certo para adaptações. A primeira foi Riverdale, e seu sucesso garantiu que outras histórias tivessem a sua chance. E por que não trazer uma personagem que sempre funcionou com o público? Foi sem qualquer surpresa que a Netflix anunciou a nova adaptação de Sabrina.

Mas não se engane, quando digo que a editora passou por uma reformulação, não foi eufemismo. Tudo mudou. A bruxinha que vemos na 1ª temporada de O Mundo Sombrio de Sabrina é baseada em seu retorno no arco Afterlife with Archie, onde a cidade de Riverdale passa por um apocalipse zumbi. Aqui, Sabrina não é apenas uma desajustada com poderes, ela é muito mais.

Sabrina Spellman (Kiernan Shipka) é filha de uma humana com um bruxo, mortos em um acidente de avião. Vivendo com as tias donas de uma funerária, a garota convive entre os humanos até que possa entrar na Academia das Artes Invisíveis. Prestes a completar 16 anos, Sabrina deve jurar obediência a Satã para entrar no coven da sua linhagem, a Igreja da Noite, e iniciar seus estudos.

Porém, Sabrina não consegue aceitar o fato de que irá perder sua liberdade para o Príncipe das Trevas, além de ser obrigada à deixar sua antiga vida para trás. Sendo assim, a garota desafia sua família e atrai a atenção do líder da igreja profana, Padre Blackwood (Richard Coyle), bem como a do próprio Diabo. Fica evidente que a colorida Sabrina dos anos 90 foi deixada para trás.

Mas os fãs antigos não ficarão perdidos. Os personagens conhecidos estão lá, mas bem mais profundos. As tias solteironas – Hilda (Lucy Davis) e Zelda (Miranda Otto) – vão além de suas características básicas de controladora ou divertida, mostrando o profundo rancor que nutrem uma pela outra. O namorado mortal Harvey (Ross Lynch) não se resume a ser o bobo que segue Sabrina, ele também tem um segredo em sua linhagem.

Um erro foi o amado gato Salem. Na série original, um bruxo foi condenado a viver como gato pela eternidade como castigo por tentar dominar o mundo. Um ser falante, Salem era quem possuía mais personalidade e carisma. Para a releitura, o gato na realidade é um demônio protetor chamado Familiar, que protege sua bruxa até a morte e assume a forma de um animal. A origem é elaborada e funciona, mas perceber que Salem não fala é uma grande decepção.

A vaga de bruxo amaldiçoado foi preenchida pelo primo Ambrose (Chance Perdomo), condenado à prisão domiciliar eternamente. Dos novos personagens, também vale a pena citar as Três Irmãs Estranhas, em especial Prudence (Tati Gabrielle). Devotas da religião satânica, decidem transformar a vida de Sabrina em um inferno sempre que possível. Entretanto, quem mais chama a atenção para si é Mary Wardell (Michelle Gomez). Com um papel dúbio e maquiavélico, a Missy de Doctor Who consegue nos prender mais um vez com as expressões que somente ela é capaz.

Com uma fotografia sombria e um ar constante de Halloween, a 1ª temporada de O Mundo Sombrio de Sabrina é sim uma boa série adolescente e, de certa forma, superior à Riverdale. Mas, como cada geração tem a Sabrina que merece, a atual está atada à todas as discussões padrão para as atuais do gênero: homossexualidade, transsexualidade e feminismo. As situações forçadas e óbvias acabam se saindo bem graças às resoluções temperadas com magia. A maior discussão, porém, é a critica à fé cega, seja em uma religião ou uma pessoa.

Sem perder tempo com a apresentação minuciosa dos personagens, os episódios da 1ª temporada de O Mundo Sombrio de Sabrina não sofrem para manter o ritmo. Aliás, é difícil não seguir os ganchos finais e acabar maratonando a série. E foi exatamente esse fato que possibilitou à cada personagem aparentemente vazio se tornar uma surpresa, tendo sua importância montada lentamente. Ao fim, temos um enredo redondo, mas que permite ser explorado.

Por fim, é possível perceber que foi correta a decisão de apoiar a personagem na crença ao profano. Se por um lado pode uni-la positivamente à história das bruxas queimadas em Salém, por outro, trouxe os perigos necessários para Sabrina mostrar que é uma heroína. Para os fãs de Buffy, a Caça-Vampiros que torceram o nariz para um reboot (como eu), talvez a 1ª temporada de O Mundo Sombrio de Sabrina venha como exemplo de que um recomeço nem sempre desrespeita o passado.