Fahrenheit 451

No próximo sábado (19) estreia Fahrenheit 451, o novo filme original da HBO. Fique tranquilo, essa crítica NÃO CONTÉM SPOILERS!

Em 1953, Ray Bradbury previu em seu romance Fahrenheit 451 que a sociedade se rodearia de telas e deixaria de lado a palavra escrita. E foi mais longe, não só desprezaria os livros, mas os proibiria e exemplares seriam queimados até a beira de sua extinção.  O livro é um marco da literatura pós-guerra, condenando a opressão anti-intelectual nazista e autoritarismo que seguiu a 2ª Guerra Mundial.

Esse é o mundo ao qual somos apresentados na adaptação da HBO para Fahrenheit 451. Seguimos a vida de Guy Montag (Michael B. Jordan), bombeiro em uma época onde seu trabalho não é apagar fogo, mas sim queimar tudo relacionada à proibida literatura, o chamado “grafiti”. Ele e seu departamento perseguem os Eels, rebeldes que tentam a todo custo preservar a palavra escrita, enquanto são assistidos por toda sociedade e tratados como celebridades.

Em um mundo com telas e câmeras por todas as partes, Montag vive como a maioria: sem questionar o governo totalitário e na busca da aprovação de seus “fãs”. Mas tudo muda quando, por meio de uma denúncia, o departamento chega à uma casa repleta de livros. A dona se recusa a abandonar os exemplares e os incendeia por conta própria, morrendo junto com sua coleção.

Montag não consegue entender como alguém é capaz de morrer pelos seus ideais e, em sua curiosidade, rouba um dos livros da coleção: Notas do Subsolo de Fiodor Dostoievski. Aos poucos e com a ajuda da rebelde Clarisse (Sofia Boutella), Montag começa a contestar os meios do governo, enquanto tenta esconder suas dúvidas do seu chefe e mentor Beatty (Michael Shannon).

Sempre carismático, B. Jordan consegue capturar bem o telespectador, mas nada seria de seu Montag sem o Beatty de Shannon, que muitas vezes rouba a cena para si. Acostumado aos papéis de vilão, nem sabemos mais se este é capaz de ser um ser humano decente, mesmo na vida real. E ainda bem que os papéis são desempenhados com tanta naturalidade por ambos os Michaels, só assim para compensar o fato que Boutella parece tão desligada do filme.

Diferente da adaptação de François Truffaut (1966), o diretor Ramin Bahrani não transformou seu Fahrenheit 451 essencialmente em uma ode de amor aos livros. O filme se desenvolve como uma crítica ao futuro hedonista e iletrado para o qual a nossa sociedade caminha, causada pela falta de literatura sim, mas também pelo vício ao que é dito e exposto nas redes sociais.

Uma cena em particular se conecta à realidade na qual estamos inseridos hoje em dia. Ao mostrar a biblioteca a Montag, Beatty mostra exemplares de clássicos da literatura e diz o porquê foram proibidos. Huckleberry Finn? Ofendeu os negros. Hemingway? Ofendeu as feministas. Richard Wright? Ofendeu os brancos. E assim é o mundo, tomamos como ofensas diretas o que um dia já foi costume ou a opinião contrária alheia. Mas sem essa leitura tão ofensiva, como podemos evoluir nossas ideias?

Talvez o impacto de Fahrenheit 451 quanto à leitura não será tão sentido no Brasil, já que a média de livros inteiros lidos por pessoa no país é menor que 2,5. Só um verdadeiro amante dos livros entende o impacto das páginas queimadas logo na abertura do filme, mas todos podem compreender para onde a repressão de ideias pode levar. O filme mostra que o poeta alemão Heinrich Heine estava certo: aqueles que queimam livros, no fim também queimarão pessoas.