Philip Pullman

Philip Pullman é o autor de inúmeras histórias conhecidas!

Neste ano, a BBC One começou a pré-produção de His Dark Materials, uma minissérie em oito partes que adaptará A Bússola de Ouro. A série espera conseguir o que o filme de 2007 não conseguiu, adaptar de maneira digna o primeiro livro da trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullman.

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Tão aclamado na Inglaterra quanto J.K. Rowling e C.S. Lewis, Pullman criou uma história que muitos chamam de anti-Nárnia. Mas afinal, por que você deveria lê-la?

Um livro sobre infância, mas não apenas para crianças

Por se tratar de um livro essencialmente infantil, o mundo criado por Pullman possui sim elementos fantásticos que enriquecem a narrativa. Trabalhando com a ideia de multiversos, a história começa sendo ambientada em um mundo semelhante ao nosso na era vitoriana, mas com uma diferença crucial: os deamons. Estes são animais falantes que representam as almas das pessoas, que se manifestam fora de seus corpos e não devem se afastar fisicamente de seus donos.

O deamon é algo sagrado, não deve ser tocado por outro que não o seu ser-humano, e assume a forma do animal que melhor representa a personalidade da pessoa em questão. Como as crianças ainda estão maturando suas características, seus deamons mudam livremente de forma. Com essa simples ideia, Pullman traz uma de suas principais lições: você deve ser seu melhor amigo e nunca deixar que os outros te afastem do seu verdadeiro eu.

E é assim que Pullman trabalha, por meio de alegorias cada vez mais profundas que explicam o ser humano e as consequências da perda da inocência. A Bússola de Ouro se parece como qualquer livro infantil, até que se desenvolve e torna claro que essa é uma definição injusta, como Harry Potter e a Pedra Filosofal. No segundo livro, A Faca Sutil, começamos a perceber o quão fabulosa a narrativa está se tornando. Até chegarmos ao seu encerramento, A Luneta Âmbar, onde as metáforas do fim da infância se tornam incrivelmente adultas.

E seguindo as complexidades de cada livro, podemos entender que essa trilogia não foi feita simplesmente para crianças, mas para aquelas que estão amadurecendo natural ou forçadamente.

A heroína à frente de seu tempo

Sua heroína Lyra Belacqua era, em 1995, o que se explora atualmente em personagens como Katniss Everdeen (Jogos Vorazes) e Celaena Sardothien (Trono de Vidro): leal, independente, destemida e uma mentirosa convicta. Para a série da BBC, ja temos a atriz confirmada para viver Lyra: Dafne Keen, a Laura de Logan.

Diferente de Susan ou Lucy, escritas por Lewis, a indisciplinada protagonista de Pullman não se conforma com os padrões impostos à uma criança, muito menos à uma menina. Em meio a ursos guerreiros e feiticeiras, Lyra parte em missões de resgate e se coloca em situações perigosas para descobrir o motivo do sumiço de diversas crianças. Mas antes que se apegue demais à Lyra, é preciso saber que ela não é a única protagonista.

Em uma trilogia não é de se esperar que um protagonista seja apresentado apenas no segundo livro, mas acontece em Fronteiras do Universo. O tímido Will Parry é apresentado em uma briga de socos com Lyra, iniciando a amizade que ditará o futuro de todos os universos.

Pullman contra a Religião

C.S. Lewis escreveu As Crônicas de Nárnia como um manifesto da fé Cristã. Philip Pullman usa Fronteiras do Universo para criticar as tradições religiosas, desconstruir o Cristianismo. Mas não é por criticar a igreja, que o livro não está recheado de espiritualidade.

O mundo de Lyra é dominado pelo Magistério, a igreja que controla todos os aspectos da vida dos cidadãos. Para a instituição, o pecado capital dos homens deve ser revertido ao se tirar o livre arbítrio de cada pessoa por meio da destruição de uma substância chamada Pó. Cada ser humano e seu daemon são ligados inexplicavelmente ao Pó, logo, eliminá-lo é o mesmo que se livrar do que nos torna humanos.

E isso é o que Philip Pullman mais deseja expressar: a religião pode ser deturpada para manipular os homens, mas não significa que não exista uma substância (ou alguém) que nos una no Universo.

A própria igreja Católica tem repudiado a trilogia de Pullman, chamando-a de “ateísmo para crianças”. Para o autor não existe céu e inferno, mas um submundo desolador que não nos deixa esquecer nossos erros em vida. Uma autoridade vinda do Pó, o mais próximo da ideia de um Deus, que não criou o universo e é um terrível tirano. Por essas e outras alegorias, o Vaticano acusa Pullman de expor como verdadeiro heroísmo a destruição não apenas da instituição religiosa, mas também a de Deus.

Apesar da escrita leve, Fronteiras do Universo é o tipo de livro que nos traz algo de novo a cada leitura, mas basta apenas uma para entender sua importância. No Brasil, o relançamento da trilogia pela Editora Suma de Letras vem no momento certo para esperar a série His Dark Materials, ainda sem data de estreia.

Para aqueles que se apaixonarem pelo mundo de Philip Pullman, também temos o início de uma trilogia prelúdio: O Livro das Sombras vol.1 – La Belle Sauvage, também publicado no Brasil pela Suma de Letras.

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