The Handmaid's Tale

A 1ª temporada de The Handmaid’s Tale entrou no catálogo do serviço de streaming Hulu nos Estados Unidos nos primeiros meses do controverso governo Trump, chocando a audiência com os efeitos de um governo sem vigilância popular. Agora, a aclamada série chega ao Brasil pelo canal pago Paramount. ESSA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS!

The Handmaid's Tale

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Mas afinal, a 1ª temporada de The Handmaid’s Tale foi boa?

Por meio da história de June Osborne (Elisabeth Moss), conhecemos o cotidiano de Gilead – anteriormente Estados Unidos –  país dominado por uma ditadura teocrática rígida e cruel. Após um golpe de Estado, as mulheres perdem seus direitos, a religião deve ser obrigatoriamente seguida e homossexuais e insubordinados são executados diariamente em praça pública. Em meio a isso, a humanidade sofre com o risco de extinção, já que a grande parte da população é estéril. Como resposta, o Estado cria o conceito de Aia (Handmaid em inglês).

Com um impacto difícil de sobrepor, o começo da 1ª temporada de The Handmaid’s Tale mostra como as mulheres comprovadamente férteis – como June – são capturadas pelo Estado, marcadas como gado e treinadas para gerarem filhos para casais da elite de Gilead. O treinamento consiste na repetição da ideia de que o corpo destas mulheres não pertence a elas, qualquer abuso ou agressão sofridos foram provocados e o homem merece total obediência.

June é então direcionada ao casal Fred (Joseph Fiennes) e Serena (Yvonne Strahovski) Waterford, perdendo seu nome de batismo como toda Aia e passando a ser chamada de Offred – “de Fred” – de acordo com o seu Comandante. Sofrendo estupros regulares na chamada “Cerimônia”, onde a esposa deve estar presente, Offred tolera a atenção indesejada de Fred e os abusos de Serena com o intuito de reaver sua filha e encontrar uma forma de escapar.

Na performance que lhe rendeu o Globo de Ouro, Moss consegue entregar o conflito interno de Offred de maneira excepcional. O espectador sofre com sua tentativa de não enlouquecer com o silêncio e solidão da nova sociedade, além do nascimento de seus sentimentos dúbios pelo motorista Nick Blaine (Max Minghella) e luto pelo marido que acredita estar morto.

Além de Offred, seguimos a história de outras Aias, em especial Janine (Madeline Brewer), que reflete a loucura causada pelos abusos físicos e psicológicos de Gilead. Durante seu treinamento é levada ao limite da lucidez ao perder um olho por sua insubordinação e sofrer vexação por ter sido estuprada no passado. Se torna então uma Aia dócil, engravida sob o nome de Ofwarren e é direcionada a um novo casal, passando a ser Ofdaniel. Sua incapacidade de superar a separação da filha gera atos desesperados que culminam em sua condenação à morte por apedrejamento. E é nessa cena, tão bem montada, onde as Aias se recusam a matar Janine, que ocorre o nascimento de uma silenciosa Resistência.

Além de Janine e June, a 1ª temporada de The Handmaid’s Tale está recheada de grandes personagens femininas que, por vezes, roubam a cena. Como Emily/Ofglen (Alexis Bledel), a Aia que tem sua verdadeira orientação sexual descoberta e sofre uma chocante castração química em uma cena comovente. Ou a esposa Serena, personificando a crueldade de uma mulher brilhante e engajada que vê seu papel reduzido na sociedade e em seu próprio casamento, obcecada com a ideia de maternidade para voltar a ser relevante.

Aliás, diversas cenas marcantes se dão graças à Serena. Seu acesso de fúria, culminando na agressão física à Offred ao descobrir que esta falhou em engravidar. A doçura fingida ao propor que a Aia dormisse com o motorista por acreditar que seu marido é infértil. Mas principalmente, sua frieza em trancar Offred no carro enquanto se encontra com a filha desaparecida, mostrando que a vida da Aia lhe pertence.

Obscuro, sim. Com ótima fotografia e trilha sonora marcante, a produção pode até sofrer em alguns momentos com o ritmo, mas merece todo mérito por seu sucesso, independente do momento político do mundo real. Baseada no mundo distópico de Margaret Atwood, a 1ª temporada de The Handmaid’s Tale termina em parte como o livro: Offred grávida e sendo levada para um futuro incerto, além do nascimento de uma resistência. Com a 2ª temporada confirmada, já sabemos que superará a história do livro e talvez seja a resposta para um melhor andamento. Basta torcer por boas escolhas que mantenham a trama envolvente, com grandes atuações e cenas questionadoras.