Simon Pegg

Simon Pegg esteve no Brasil em dezembro para participar da CCXP 2017!

A convite da Warner Bros. Pictures, entrevistamos Simon Pegg, que veio ao Brasil divulgar O Jogador nº 1. Muito simpático e divertido, o ator posou para fotos e participou de um bate-papo informal que durou cerca de 19 minutos.

O que está achando do Brasil?

É tão frustrante quando você tem a oportunidade de finalmente visitar um lugar que sempre quis e acaba ficando dentro do hotel. Demos umas voltas pela cidade ontem e o trânsito estava extraordinário. Me senti como se estivesse em casa, em Londres (risos).

Conte sobre o seu personagem

Bom, eu interpreto um personagem chamado Ogden Morrow, co-criador do Oasis. O filme é sobre esse mundo virtual onde as pessoas essencialmente vivem no futuro. E Ogden Morrow é o parceiro de James Halliday, inventor do mundo virtual e o homem que faleceu e escondeu sua fortuna dentro do jogo. Ogden é um personagem no estilo Steve Jobs, sabe? Ele é a face pública da operação, com uma maior capacidade de se socializar do que o personagem de Halliday. James Halliday era mais ao estilo de Steve Wozniak, enquanto Morrow é como Jobs, apesar de ter um pouco de cada em ambos. E ele ainda está vivo, então está ciente enquanto a caçada pela fortuna está acontecendo.

Você é uma espécie de vilão no filme?

Não! Ele é um dos mocinhos.

Mesmo?

Mesmo! Mas eu provavelmente não te contaria a verdade (risos). Bom, no livro ele é descrito como uma espécie de Papai Noel em sua velhice, já que a estória se passa 50 anos no futuro e eu teria por volta de 70 anos no filme. Um cara legal, do tipo benevolente, paternal. Mas você também o vê no passado, quando ele era mais jovem. É muito legal interpretá-lo na passagem dos anos, poder retratar um personagem em seus 28 anos e também com 72. Foi bem divertido.

Star Wars e Star Trek não foram nerds o suficiente para você?

Não.

Mais um?

Eu tenho que fazer tudo (risos). Quer dizer, tenho sido muito sortudo em ter a oportunidade de trabalhar em filmes que eu amava como fã. E trabalhar com pessoas que moldaram meu amor por cinema, particularmente Steven Spielberg que é uma pessoa cujo trabalho eu sou apaixonado desde os meus 8 ou 9 anos de idade. Eu mostrei Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida duas semanas atrás para a minha filha – ela tem 8 anos – sentar com ela e mostrar esse filme foi um momento extraordinário para mim, assim como trabalhar com ele.

E ela pôde conhecê-lo. Minha filha estava muito interessada em assistir Tubarão. Ela ficava dizendo: “Papai, eu quero assistir Tubarão!” e eu dizia “Você não pode assistir, não é apropriado pra você,” – na época ela estava com sete – “você pode ir ao set de filmagens comigo e perguntar ao Steven se você pode assistir. Se ele disser que sim, eu aceito porque ele é o chefe”. Então ela foi trabalhar comigo e Steven ama crianças, veio conversar sobre O Bom Gigante e quando ela perguntou se poderia assistir Tubarão, ele perguntou sua idade e já disse logo “Não”. E ai está, problema resolvido, se o chefe diz…(risos).

Você já era familiarizado com o livro Jogador nº 1?

Sim, sim…Eu estou no livro! É a parte mais estranha, estou em uma das dimensões do livro.

Essa referência está no filme?

Não. Steven criou todas as referências do filme, elas diferem do livro por inúmeras razões. Se tentássemos abranger todas as dimensões do livro, o filme custaria bilhões de dólares. E também, pensando de maneira prática, às vezes você deve ter certeza que toda a sua audiência está por dentro das referências, algumas ligeiramente mais difíceis ainda estão lá, mas você tem que procurá-las.

Fiquei sabendo que você estava prestes a tirar um tempo da atuação quando Steven Spielberg o convidou para o projeto. Por que você ia tirar esse tempo?

Bom, eu terminei Star Trek: Beyond e foi uma experiência incrível em muitos sentidos. Foi muito desafiador porque não tínhamos muito tempo para fazê-lo. Era muito emocional e, quando voltei das filmagens, não sabia o que queria fazer agora. Fiz Star Wars, Star Trek e  todas essas coisas que, quando criança, me sentiria sortudo de estar em apenas uma delas. “Quem sou eu?” – eu estava como o Zoolander olhando no espelho. Então cheguei à conclusão que precisava de 6 meses de folga para sentar e pensar para onde queria ir, se continuaria a ser ator. Liguei para o meu agente e disse: “Vou fazer isso. Não me telefone, exceto se Steven Spielberg ligar”. E ele ligou. E pensei: “Maldição, não posso nem fazer uma auto-reflexão”.

Então é…foi isso que aconteceu. É claro que eu disse “Sim, por favor”, o admiro muito como diretor e pessoa. A chance de trabalhar com ele e com captura de movimentos, agora me sinto bem em ser ator novamente.

Não está pensando em tirar 6 meses de folga agora, pós-Spielberg?

Não, não posso. Tenho muita coisa acontecendo. Eu comecei uma produtora com Nick Frost, somos os executivos agora. Não tenho como tirar 6 meses.

Então agora você é o chefe.

É, eu sou. (risos)

Já que o filme é sobre o mundo virtual, há muitas cenas com tela verde. Como é a dinâmica em um set onde os cenários são construídos na pós-produção?

Uma das ótimas coisas sobre esse filme, e acredito que faz o livro ser perfeito para adaptação, é que ele é ambientado parte em um mundo virtual, irreal, e parte no mundo real. O próprio filme transita entre a realidade mundana do futuro que Wade vive e o incrível mundo criado de Oasis. E é bem atual, vivemos em uma época que estamos olhando no celular o tempo todo e escapando para mundos virtuais, que se tornam cada vez mais reais. Realidade virtual evoluiu muito – Haptic Suits promovendo a sensação do toque virtual – tudo está avançando. Como Minority Report, esse filme está no limite da realidade, estamos entrando nesse mundo. E foi divertido gravar um filme parcialmente digital, onde você podia caminhar pelos sets com um óculos VR e ver todos os cenários construídos digitalmente. Ao mesmo tempo você tinha cenários físicos, como a pilha de trailers que Wade mora, era incrível. Então, era uma verdadeira mistura de imaginação e realidade.

Você acha que esse filme tem uma mensagem sobre o risco de perder nossas vidas para a tecnologia?

É sobre aceitar sua realidade, não importa qual seja. Não fuja dela. Acredito que o conflito entre meu personagem e o de Mark Rylance, a tensão entre nós enquanto criávamos o Oasis, era a de que eu não queria que as pessoas simplesmente vivessem naquele mundo, elas deveriam ser capazes de voltar para a realidade. E o perigo do filme é que o mundo real é tão opressor que essa criação é muito mais atrativa. Levanta uma questão importante: se não queremos escapar para um mundo virtual, devemos fazer do que vivemos um lugar muito melhor. Claro que é fácil de dizer, nos últimos 12 meses esse mundo que vivemos apenas se tornou mais e mais insano, é inacreditável. Eu adoraria ter um mundo virtual para fugir (risos). Então, acredito que a mensagem seja essa, de que não se deve viver em um mundo virtual, mas também é necessário melhorar a realidade.

Você acha que o jogo do filme pode se tornar real um dia?

Totalmente. Acho que é muito provável. Eu jogo Minecraft com a minha filha e todos os amigos dela estão nesse mundo. Claro que é para ser bem irreal, mas esse é o início do Oasis. Um lugar onde você possa estar com várias pessoas, colocar sua máscara, não está muito longe. Sinto que todos nós poderíamos nos tornar viciados no Oasis muito em breve.

Como você vê a humanidade em 2045?

É uma boa pergunta. O progresso que fizemos nos últimos 20 anos, desde a virada do século, é surpreendente. Se progredirmos nesse ritmo novamente, quem saberá onde estaremos em 2045? Acredito que esse filme retrata um futuro plausível, mas quem sabe? Acho que quanto mais avançarmos, mais vestiremos tecnologias, não só como roupas, mas debaixo da pele também. Nos adornaremos de tecnologia, implantes de chips que servirão de chave para nossas casas. O ser humano do futuro será muito diferente do que somos agora, em 200 anos estaremos tão dessemelhantes de agora quanto dos Neandertais. Isso se chegarmos tão longe, se Kimmy e Donny não tiverem uma briga antes.

Com Star Wars e Star Trek, você sente falta de estrelar filmes menores?

Sim e participei de uns filmes menores que estou ansioso para serem lançados. Fiz um com Margot Robbie chamado Terminal, que estreia no ano que vem. Produzi essa comédia chamada Slaughterhouse Rulez. Filmarei uma pequena produção em Los Angeles no próximo ano. E Nick Frost e eu temos planos de voltar a trabalhar juntos no futuro. Então, eu sempre tento contrabalancear grandes produções com trabalhos menores, porque são trabalhos que gosto tanto quanto. Estar no meio de Missão Impossível foi uma loucura, incrível, mas também amo fazer pequenos filmes onde todos trabalham juntos para completá-lo.

O que podemos esperar do novo Missão Impossível?

Muitas cenas de ação insanas. Esses filmes se popularizaram com Tom (Cruise) fazendo suas próprias cenas de ação e ele as faz muito bem. A cena que ele quebrou o tornozelo foi uma das pequenas, o vi fazendo coisas extraordinárias esse ano. O interessante é que ele percebeu que quebrou o tornozelo, continuou até passar a câmera antes de cair no chão, para que a cena fosse aproveitada. Mas ele está bem agora, se curou mais rápido do que qualquer pessoa normal.

Isso acaba te forçando a tentar ir além do comum e fazer suas cenas de ação também?

É claro. Mas felizmente sou só o nerd da computação (risos).

Jogador Nº1 tem muitas referências aos anos 80, qual a sua lembrança dessa década?

Foram meus anos de adolescente. As pessoas reavaliaram sua percepção dos anos 80, houve uma época que eles eram uma piada por conta do colorido. Mas na realidade era uma época muito vibrante e criativa, toda aquela cor e spray de cabelo era uma forma de expressão. Quando você olha para os anos 90, era bem sem graça, meio bege. Já os 80, particularmente no Reino Unido, eram o pós-punk, com uma explosão de culturas de todas as formas, músicas, filmes. Era um tempo muito vibrante, possivelmente, por estarmos à beira de uma guerra nuclear com a Rússia, estava sempre no noticiário. Talvez, agora seja uma boa época para a criatividade também, já que estamos vendo isso se repetir. Não há melhor época para a criação do que aquela em face da adversidade. Então é, acho que os anos 80 merecem outra chance.

Você trabalhou com Edgar Wright em três filmes diferentes, qual é seu favorito?

Isso muda de acordo com o meu humor. No momento é Heróis de Ressaca, que foi o último que fizemos. É meu favorito por ter sido uma experiência muito pessoal e por terminarmos o que começamos, já que a ideia eram 3 filmes tematicamente conectados. Eu realmente amei Heróis de Ressaca porque pude interpretar esse personagem caótico e ridículo, eu amo Gary King.

Você prefere cinema ou televisão?

Essa foi parte da decisão de criar uma produtora, a divisão entre cinema e televisão está muito turva hoje em dia. Programas como Game of Thrones, assim como muitas outras séries, poderiam ser vistos no cinema. Acho que você deveria assinar serviços de streaming como HBO e Netflix e receber entradas para o cinema, ou pagar um pouco mais para assistir na tela grande. Isso manteria os cinemas vivos também, porque assistindo mais televisão, perdemos a comunidade do cinema e as pessoas acabam se esquecendo do quão bom é assistir um filme em uma sala cheia de estranhos e dividir a emoção com eles. E pra mim, essa é a tristeza de não ir ao cinema: não é deixar de ver as coisas em uma tela grande, mas deixar de compartilhar. Para voltar à sua pergunta, eu amo filmes, é minha paixão. Mas tenho assistido muita televisão também, a nova temporada de Twin Peaks foi incrível, eu amei.

Para fechar, O Jogador Nº1 o fez questionar sua relação com a tecnologia?

Sim, e traz perguntas interessantes. Você poderia reclamar da ideia de todos vivendo em um mundo virtual, mas como eu disse: se não há muito mais para você fora dele, se a sociedade é tão injusta, há pobreza e desigualdade, é compreensível que as pessoas entrem em um mundo em que isso não exista ou não seja sentido. E um ótimo ponto do filme e do livro, como os jogadores apresentam a si mesmos muito diferentes no mundo real. Para as pessoas que se sentem à margem da sociedade ou não aceitos, poder ser quem quiserem é uma ideia muito atrativa. É uma pena que não possam se sentir assim no mundo real, mas talvez algum dia possam se começarmos a ser mais legais uns com os outros

 

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